Este é um dilema que os habitantes, principalmente das grandes cidades, se defrontam diariamente. Dar ou não um troco? Se der, será que estou estimulando a vadiagem? E se realmente a pessoa está necessitada? Algumas pessoas se "resolvem": não é problema meu...é do governo...ou do próprio que não quer pegar no batente como eu...
Mas será que lá no fundo ficamos com a consciência em paz ao dizer um não??? Confesso que me incomoda.
Me lembro que Chiara Lubich, fundadora do movimento dos focolares, dizia que se deve amar a todos (está no evangelho) e neste caso significa, pelo menos, ouvir o outro e, se possível, ajudar de alguma maneira. Ela dizia: eu posso amar e dar a minha contribuição... o que o outro vai fazer com o dinheiro depende dele...diante de Deus eu procurei fazer a minha parte...
Mas sabemos que não é simples. Somos abordados diversas vezes num dia; ficamos divididos: o que é melhor? dar logo o dinheiro para me "livrar" do pedinte, dizer não, ou fazer de conta que o outro não existe?
Parar para ouvir: apesar de difícil (estamos sempre com pressa...) mas se eu paro para ouvir, posso ter uma ideia mais clara do que fazer para aquela situação.
Recebi o texto abaixo, é do Jornalista Mauro Ventura, de O Globo e me pareceu interessante,
O homem se aproxima, acompanhado do bafo de bebida.
- Posso falar um instantinho com o senhor? - pergunta.
- Só não me venha pedir dinheiro - respondo.
- Não, é que eu estava precisando completar a passagem.
- Não tenho, não - encerro a conversa, me afastando rapidamente.
Tento justificar para mim mesmo minha rispidez. Ele falou que o assunto não era financeiro, mas tratava-se obviamente de dinheiro. Além disso, cheirava a bebida. Mas nem por isso eu precisava ser tão rude.
É difícil dar alguns passos no Rio sem ser abordado por alguém. Um menino de rua, um mendigo, um entregador de folheto. Quando é dinheiro, damos alguma das seguintes desculpas clássicas, nenhuma delas plenamente justificável.
- Não tenho (em geral temos algum).
- Desculpe, estou sem trocado (ele sabe que pelo menos uma moedinha a gente deve ter).
- Fica para a próxima (como se algum dia fôssemos revê-lo).
- Vou ficar devendo (como se ele fosse cobrar depois).
- Sinto muito (como se realmente sentíssemos tanto assim).
- Tá ruim pra todo mundo (de fato, mas para ele está bem pior).
- Tá feia a coisa (está mesmo, mas não serve de consolo).
No livro "No olho da rua", Marcelo Antonio da Cunha conta que na sua infância, no Recife, a mãe ensinou-lhe a pedir desculpas aos mendigos.
- Me dê uma esmola, pelo amor de Deus.
- Perdoe-me - ele respondia.
- Amém.
Trinta anos depois, ele já tinha substituído o "perdoe-me" pelo "estou sem trocado". Seu filho quis saber por que ele mentia para os pedintes. Marcelo explicou que era para não estimular a permanência deles nas ruas.
Mas ele se tornou diretor da Fazenda Modelo, um abrigo destinado à população de rua. Ali, descobriu o inferno, e sentiu necessidade de pedir novamente perdão, pela forma como são tratados os que estão à margem.
Não chego a tanto, mas confesso que volta e meia bate uma pontinha de culpa quando fecho a cara e digo "não tenho" diante de mais um pedido.
A verdade é que ninguém está muito a fim de ouvir estranhos. Andamos tão sobressaltados que uma aproximação mais brusca já intimida. O rapaz estava no ponto de ônibus quando um mendigo se aproximou e falou algo. Antes mesmo de ouvir o que estava sendo dito, ele respondeu:
- Não tenho.
Foi uma reação automática. O homem insistiu e ele cortou novamente:
- Tô sem trocado.
Até que o desconhecido se irritou.
- O senhor escutou o que eu falei? Eu disse "bom dia e boa viagem?.
Nem todo mundo faz como uma amiga, que resolveu perguntar a um mendigo qual era o seu sonho.
- Uma porta - ele respondeu.
Parece pouco para quem está sempre com uma maçaneta à mão. Mas não para quem vive nas ruas.
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