1914 e 1939 - duas grandes guerras mundiais; em meio a tantas mortes e destruição, é possível descobrir sementes de esperança?
Mas, voltemos um pouco no tempo:
Primeira grande guerra mundial – 1914 a 1917
O processo de partilha das colônias da África e Ásia no final do século XIX deixou perdas e ganhos: países, como a França e a Inglaterra, exploravam colônias ricas em matérias-primas e tinham um grande mercado consumidor; outros, como Alemanha e Itália, foram alijados dessa partilha o que gerou grande insatisfação, podendo ser considerada uma das causas da guerra.
Nesse período se formaram dois blocos de países com fins políticos e militares: de um lado a Tríplice Aliança com Itália, Império Austro-Húngaro e Alemanha; de outro, a Tríplice Entente, com a França, Rússia e Reino Unido. Em 28 de julho de 1914, durante uma visita a Saravejo, foi assassinado o príncipe do império austro-húngaro Francisco Ferdinando, o que precipitou uma declaração de guerra desse império contra a Sérvia, provocando o envolvimento dos dois blocos.
Em 1917 ocorreu um fato decisivo: a entrada dos Estados Unidos no conflito ao lado da Inglaterra e França, o que acabou forçando os países da Aliança a assinarem a rendição e o Tratado de Versalhes, que lhes impôs fortes restrições e punições. A Alemanha teve seu exército reduzido, sua indústria bélica controlada, perdendo algumas regiões de influência, além de ter que pagar os prejuízos da guerra. Todos estes fatos provocaram um clima de revolta na Alemanha, influenciando o que viria a ser a Segunda Guerra Mundial.
Essa guerra provocou aproximadamente 10 milhões de mortos, o triplo de feridos, arrasou campos agrícolas, destruiu indústrias, além de gerar grandes prejuízos econômicos.
Segunda grande guerra mundial – 1939 a 1945
Durante a década de 1930 surgiram na Europa governos totalitários com fortes objetivos militaristas e expansionistas, influenciados pelos resultados da 1ª guerra. Na Alemanha o nazismo, liderado por Hitler, pretendia expandir o território Alemão, desrespeitando o Tratado de Versalhes e reconquistando territórios perdidos. Na Itália crescia o Partido Fascista, liderado pelo Duce - Benito Mussolini - com poderes sem limites. Havia uma série crise econômica, agravada pela grande depressão, iniciada com a queda das bolsas em 1929, deixando milhões sem emprego. Uma das soluções desses governos foi a expansão das indústrias de artefatos de guerra. Na Ásia, o Japão também possuía forte desejo de expansão geográfica. Estes três países uniram-se e formaram o Eixo, um acordo com fortes características militares.
O estopim da guerra foi a invasão da Polônia pela Alemanha em 1939, fazendo com que a França e a Inglaterra lhe declarassem guerra. Novamente se formaram dois grupos: Aliados (liderados por Inglaterra, URSS, França e Estados Unidos) e Eixo (Alemanha, Itália e Japão ). A maioria das nações do mundo acabou se envolvendo, o que levou à guerra mais sangrenta da história, com mais de 100 milhões de militares mobilizados e um massacre contra civis, incluindo o Holocausto, duas bombas nucleares e mais de setenta milhões de mortos.
Neste contexto é possível a esperança?!!!
Qualquer guerra é um drama para milhares de pessoas, porém é possível vislumbrar sementes de paz, através da ação ou iniciativa de pessoas comuns. Vamos conhecer algumas desse período:
Maximiliano Kolbe ( 1894 a 1941). De origem polonesa, Franciscano desde 1907, foi editor de uma revista católica que chegou a um milhão de exemplares. Chegou a instalar uma emissora de rádio e foi missionário no Japão, estando em Nagasaki de 1930 a 1936. Durante a Segunda Guerra Mundial deu abrigo a muitos refugiados, incluindo cerca de 2.000 judeus. Em 1941 é preso pela Gestapo e depois transferido para Auschwitz. Numa ocasião um homem do bunker de Kolbe foge e como represália os nazistas o enviam para uma cela isolada com outros dez prisioneiros para morrer de fome e sede. Um dos dez lamenta-se pela família que deixa, dizendo que tinha mulher e filhos e Kolbe pede para tomar o seu lugar. O pedido é aceito e o padre Kolbe aceita o martírio, procurando dar assistência àqueles pobres condenados. Duas semanas depois, só quatro sobrevivem, incluindo Kolbe. Os nazistas decidem executá-los com uma injeção de ácido.
Oskar Schindler foi um industrial tcheco. Ao comprar em 1939 uma fábrica de esmaltados quase falida na Polônia dominada pela Alemanha de Hitler, usou suas boas relações com altos funcionários nazistas, para recrutar trabalhadores entre prisioneiros judeus do gueto da Cracóvia, passando a fornecer produtos para o exército alemão. Quando os nazistas iniciam a "solução final" (execução em massa dos judeus), Schindler intercede junto ao comandante Amon Goeth, subornando outros oficiais e garantindo tratamento diferenciado para seus operários, salvando-os dos campos de extermínio.
Chiara Lubich. Nasce em 1920 em Trento, norte da Italia, no período entre as duas guerras. Tendo como origem uma família humilde, o pai de Chiara perdeu o trabalho por defender idéias socialistas e por isso a família teve de encontrar outras ocupações. Chiara dava aulas particulares e estudava filosofia na Universidade de Veneza, pois procurava a verdade profunda das coisas. Enquanto tudo desmoronava ao seu redor, descobre que Deus era para ela o único ideal que não passava. Divide então esta descoberta com outras companheiras e juntas formam um pequeno grupo, constituindo assim o primeiro núcleo de um movimento que se expandiria por muitos países. Em 1943 se consagra a Deus, período considerado o marco inicial do movimento que ficou conhecido mais tarde como Focolares, que pode ser traduzido como “lareira” em italiano e que simboliza o calor do aconchego do lar, de pessoas que se amam e se querem bem.
Sua casa foi destruída por um violento bombardeio, o que obrigou seus familiares a se refugiarem nas montanhas. Chiara deu um passo decisivo decidindo permanecer em Trento com suas companheiras, fiel ao que lhe pareceu a vontade de Deus para ela.
Mesmo passando por grandes dificuldades viviam intensamente, procurando ajudar os mais necessitados, mesmo se não tinham quase nada. Muitas vezes tinham que correr para o refúgio e a única coisa que levavam era o evangelho, que se tornou para elas uma grande luz. As frases lidas procuravam colocar logo em prática: “amai-vos uns aos outros...”, “perdoai vossos inimigos...”. A certeza de que Deus as ama imensamente se tornou um marco na vida dos que aderem a esta espiritualidade.
Um dia um pobre lhe pede um par de sapatos nº 42. Elas não tinham, mas confiaram a Deus que lhes ajudassem. No mesmo dia, ao saírem de uma igreja, uma senhora lhes ofereceu um par de sapatos 42. Coincidência?
Muitíssimos outros fatos, “coincidências”, aconteceram e aos poucos outras pessoas, de todos os tipos, se juntavam a esse grupo. Tinham como principal objetivo viver o amor e a caridade recíproca e apreenderam a ver nos muitos momentos de dor um aspecto ou uma face do homem-Deus, Jesus, que deu sua vida pela redenção dos homens.
Com o crescimento e estruturação desse movimento brotaram ramificações, como numa grande árvore: consagrados (virgens e casados), famílias, jovens e crianças (Gen: geração nova), voluntários (pessoas comprometidas em viver esta espiritualidade em seu ambiente de trabalho), padres, religiosos (as) e bispos. O movimento é aberto e procura dialogar em quatro níveis: com outros movimentos católicos, com cristãos de outras denominações, com fiéis de grandes religiões e com pessoas sem um referencial religioso, mas que valorizam o bem e a fraternidade.
Chiara faleceu em março 2008 e deixou um legado rico em espiritualidade, mas também com várias iniciativas concretas de penetração desse espírito de fraternidade na sociedade, tais como: na economia com o projeto de Economia de Comunhão com mais de 800 empresas engajadas, na política com políticos de diversos partidos comprometidos com a ética e o atuar juntos em projetos de interesse da sociedade.
Chiara ganhou ainda em vida muitos títulos honoríficos e comendas de diversos países. Aqui no Brasil foi agraciada com a ordem do Cruzeiro do Sul. O vídeo abaixo dará uma pequena idéia de quem foi essa grande mulher dos tempos modernos.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
domingo, 9 de maio de 2010
Fraternidade... faz algum sentido hoje?
Fraternidade.... será que esta palavra tem algum significado hoje? Afinal estamos vivendo uma época chamada por muitos como pós-modernidade, lugar de competição e individualismo onde as pessoas têm que cuidar de si e da sua família, afinal quem vai pensar nelas?
Podemos lembrar do ideal da revolução francesa: liberdade, igualdade e fraternidade! Nos nossos tempos liberdade ganhou um status de uma das coisas que mais importa (pelo menos no mundo ocidental; igualdade... tem sido um enorme desafio. Sabemos que somos diferentes: raças, condição social, educação, valores... assim, o que significa igualdade? Na época que o comunismo estava no auge eles pensavam que igualdade era tornar todos em condições sociais iguais... não funcionou...
Talvez possamos entender igualdade de oportunidades e já seria um enorme desafio num país de proporções gigantescas como o Brasil e de imensas desigualdades sociais. Mas muitos lutam ou fazem alguma coisa para diminuir essas desigualdades. Também poderíamos pensar: como humanos, somos todos dignos de respeito, de sermos valorizados pela nossa condição humana, independente do resto...mas, ainda é um baita desafio.
E a fraternidade? É muito menos falada que as outras duas. A Campanha da Fraternidade da CNBB cada ano tenta enfocar um assunto merecedor de reflexão. Neste ano Justica e Paz, assuntos importantíssimos para vivermos em sociedade.
Convido vocês a verem um pequeno filme interessante sobre o assunto com Jorge Furtado:
Podemos lembrar do ideal da revolução francesa: liberdade, igualdade e fraternidade! Nos nossos tempos liberdade ganhou um status de uma das coisas que mais importa (pelo menos no mundo ocidental; igualdade... tem sido um enorme desafio. Sabemos que somos diferentes: raças, condição social, educação, valores... assim, o que significa igualdade? Na época que o comunismo estava no auge eles pensavam que igualdade era tornar todos em condições sociais iguais... não funcionou...
Talvez possamos entender igualdade de oportunidades e já seria um enorme desafio num país de proporções gigantescas como o Brasil e de imensas desigualdades sociais. Mas muitos lutam ou fazem alguma coisa para diminuir essas desigualdades. Também poderíamos pensar: como humanos, somos todos dignos de respeito, de sermos valorizados pela nossa condição humana, independente do resto...mas, ainda é um baita desafio.
E a fraternidade? É muito menos falada que as outras duas. A Campanha da Fraternidade da CNBB cada ano tenta enfocar um assunto merecedor de reflexão. Neste ano Justica e Paz, assuntos importantíssimos para vivermos em sociedade.
Convido vocês a verem um pequeno filme interessante sobre o assunto com Jorge Furtado:
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Ahhhhh.....que bela mensagem!!!!!!

"Precisamos aprender a conviver com nossos inimigos, já que não podemos transformar todos eles em amigos" (Alexis de Tocqueville, historiador e político francês, 1805-1859)
Esta frase é muito desafiadora e nos faz refletir. Mensagens assim são muito importantes, mas... como outras inúmeras mensagens de mudança de vida que recebemos são inócuas ou, pelo menos, em geral, têm muita pouca eficácia.
Sejamos sinceros; quantas mensagens destas recebemos e depois de alguns minutos já não nos lembramos mais...se conseguíssemos colocá-las em prática, provavelmente, estaríamos muito melhor (ou não....)
Porque isto acontece??? Na sociologia e também na antropologia encontramos respostas que podem nos dar algumas dicas:
- O ser humano não é tão racional quanto se pensa. Vivemos em comunidades: família, trabalho, escola....somos condicionados por situações externas, pelas pessoas que convivem ou trabalham conosco, por situações que nos determinam como o tempo, o horário de serviço, dormir, alimentar-se, estudar, etc....nossa vida é feita de regras, convenções e práticas que aprendemos desde pequenos e que nos dizem o que temos que fazer a cada instante.
- Todos nós somos condicionados desde pequenos a perceber, pensar, classificar as situações e agir de certa forma. Isto quer dizer que não temos autonomia de fazer o que quiser? Não é bem assim, somos livres, pero no mucho....Vocês se lembram da música "Como nossos pais"?
- Até nosso próprio cérebro procura poupar energia e desta forma, a maior parte dos pensamentos ou atitudes que temos é automatizada, até como necessidade de saúde mental. Nosso cérebro não aguentaria ter que analisar e processar cada situação... na maior parte das vezes o cérebro age de forma automatizada com base em situações vividas ou por analogia. Quem dirige já deve ter ficado admirado de dirigir por longos trechos e dar-se conta de que estava no piloto automático.
Mudar de atitudes e de comportamentos na vida não é tão simples...mas é possível. Primeiro tenho que ter consciência de que a mudança é importante (para mim) ; segundo, preciso, sinceramente, estar comprometido com a mudança e aí é que dificilmente conseguimos ser muito fiéis aos propósitos, isto porque é difícil mesmo mudar os hábitos.
Pierre Bourdieu, sociólgo francês, usa a expressão "habitus" para designar nossos condicionamentos interiores, ou seja, nossas práticas, pensamentos e formas de julgar as circunstâncias, fruto do histórico da nossa vida, condição social, cultural, etc...É muito difícil a mudança do "habitus", mas é possível.
Eu quero mudar de verdade? Sim...então vou assumir um pequeno compromisso de mudança (para começar) e estabelecer uma condição objetiva que me "obrigue" a manter meu compromisso. Por exemplo: quero caminhar todo dia pela manhã; para isto tenho que levantar meia hora mais cedo. Então é bom que eu crie condições que me lembrem desse compromisso, por exemplo: deixar com alarme o despertador e também o celular, ou pedir para alguém me chamar...melhor ainda, combinar com alguém de fazer o mesmo programa, assim um ajuda o outro......
É difícil? Um pouco, mas cada vez que eu consigo vencer a inércia e fazer pequenas mudanças ganho confiança e coragem para empreender outras mais difíceis.
Outro aspecto importante, para quem acredita; podemos pedir também uma ajuda celeste, ou uma graça, que nos ajude a conseguir a mudança pretendida. A ciência não explica este aspecto, mas para quem tem fé isto é muito importante; pense nas pessoas que deixam as drogas, o cigarro, bebida, etc...Sim a fé nos ajuda a mover montanhas, mas precisa também do nosso compromisso e esforço...
Certas mudanças precisam também de uma dose de ousadia. Quem não se lembra do filme:"Mudança de hábito". Curta um pouquinho o vídeo abaixo que é excelente.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
A mochila, que coisa boa... será?

Começou com as crianças levando à escola e logo se espalhou; depois foram os jovens, adultos, pobres, ricos, trabalhadores e empresários, muitos aderiram a ela.
Surgiram os mais variados tipos e modelos, tem para todos os gostos.
A mochila teve um impulso maior ainda pela facilidade de levar material de trabalho, notebooks, material de esporte, coisas de uso pessoal, etc.
Foi realmente uma boa invenção, quem não se lembra daquelas pastas pesadas que deixavam a pessoa torta, se equilibrando para compensar o lado carregado....
Porém, não se pensou que ela se tornaria uma coisa chata em algumas situações, como nos transportes coletivos. Ônibus, metrô, barcas, trem... em vários lugares ela começou a ser sinônimo de incômodo, chateação.
Vivemos uma época de individualismo. Quem é hoje que não pega seu transporte e puxa logo algo prá ler (se estiver sentado) ou bota aquele aparelhinho, aquela outra maravilha, o walkman? E tome tecnologia: walkman, MP3, MP4, .......... celular com música, rádio...qualquer um (ou quase) pode possuir alguma destas maravilhas.
Individualismo...pois é, as pessoas não se dão conta mais do outro; ah, esse outro... acaba sendo um chato....Eu aqui, com a minha mochila, curtindo meu som e esse cara vem passar logo por aqui???
Outro dia estava num ônibus cheio e uma senhora com uma mochila nas costas, prá variar atrapalhando quem passava. Depois de algum tempo e empurra empurra ela reclamou: "bem que eles poderiam passar de ladinho, mas querem passar de frente"...
Durma com um barulho desses.....
Pois é: o outro.... porque perdemos essa dimensão do outro, da alteridade? Será que é assim mesmo?
Não é!!!! precisamos readquirir ou aumentar nossa percepção do outro, de quem está ao nosso lado, gente que precisa ser respeitada em seus direitos. Não posso fazer o que quiser e deixar que o outro que se lixe...
Boas maneiras se aprende em casa, mas também na escola. A educação é fundamental para um crescimento da sociedade de forma vivível, sem necessidade de passarmos aborrecimentos e stress para enfrentar nosso cotidiano.
Eu também uso mochila, mas procuro estar atento. Se vejo que vai incomodar tiro das costas, faço alguma coisa para ser gentil ou no mínimo respeitar o direito de ir e vir da outra pessoa. Isto não é mérito...é obrigação; meu próximo merece respeito.
sábado, 1 de maio de 2010
Mendicância: sobrevivência ou vadiagem???
Este é um dilema que os habitantes, principalmente das grandes cidades, se defrontam diariamente. Dar ou não um troco? Se der, será que estou estimulando a vadiagem? E se realmente a pessoa está necessitada? Algumas pessoas se "resolvem": não é problema meu...é do governo...ou do próprio que não quer pegar no batente como eu...
Mas será que lá no fundo ficamos com a consciência em paz ao dizer um não??? Confesso que me incomoda.
Me lembro que Chiara Lubich, fundadora do movimento dos focolares, dizia que se deve amar a todos (está no evangelho) e neste caso significa, pelo menos, ouvir o outro e, se possível, ajudar de alguma maneira. Ela dizia: eu posso amar e dar a minha contribuição... o que o outro vai fazer com o dinheiro depende dele...diante de Deus eu procurei fazer a minha parte...
Mas sabemos que não é simples. Somos abordados diversas vezes num dia; ficamos divididos: o que é melhor? dar logo o dinheiro para me "livrar" do pedinte, dizer não, ou fazer de conta que o outro não existe?
Parar para ouvir: apesar de difícil (estamos sempre com pressa...) mas se eu paro para ouvir, posso ter uma ideia mais clara do que fazer para aquela situação.
Recebi o texto abaixo, é do Jornalista Mauro Ventura, de O Globo e me pareceu interessante,
O homem se aproxima, acompanhado do bafo de bebida.
- Posso falar um instantinho com o senhor? - pergunta.
- Só não me venha pedir dinheiro - respondo.
- Não, é que eu estava precisando completar a passagem.
- Não tenho, não - encerro a conversa, me afastando rapidamente.
Tento justificar para mim mesmo minha rispidez. Ele falou que o assunto não era financeiro, mas tratava-se obviamente de dinheiro. Além disso, cheirava a bebida. Mas nem por isso eu precisava ser tão rude.
É difícil dar alguns passos no Rio sem ser abordado por alguém. Um menino de rua, um mendigo, um entregador de folheto. Quando é dinheiro, damos alguma das seguintes desculpas clássicas, nenhuma delas plenamente justificável.
- Não tenho (em geral temos algum).
- Desculpe, estou sem trocado (ele sabe que pelo menos uma moedinha a gente deve ter).
- Fica para a próxima (como se algum dia fôssemos revê-lo).
- Vou ficar devendo (como se ele fosse cobrar depois).
- Sinto muito (como se realmente sentíssemos tanto assim).
- Tá ruim pra todo mundo (de fato, mas para ele está bem pior).
- Tá feia a coisa (está mesmo, mas não serve de consolo).
No livro "No olho da rua", Marcelo Antonio da Cunha conta que na sua infância, no Recife, a mãe ensinou-lhe a pedir desculpas aos mendigos.
- Me dê uma esmola, pelo amor de Deus.
- Perdoe-me - ele respondia.
- Amém.
Trinta anos depois, ele já tinha substituído o "perdoe-me" pelo "estou sem trocado". Seu filho quis saber por que ele mentia para os pedintes. Marcelo explicou que era para não estimular a permanência deles nas ruas.
Mas ele se tornou diretor da Fazenda Modelo, um abrigo destinado à população de rua. Ali, descobriu o inferno, e sentiu necessidade de pedir novamente perdão, pela forma como são tratados os que estão à margem.
Não chego a tanto, mas confesso que volta e meia bate uma pontinha de culpa quando fecho a cara e digo "não tenho" diante de mais um pedido.
A verdade é que ninguém está muito a fim de ouvir estranhos. Andamos tão sobressaltados que uma aproximação mais brusca já intimida. O rapaz estava no ponto de ônibus quando um mendigo se aproximou e falou algo. Antes mesmo de ouvir o que estava sendo dito, ele respondeu:
- Não tenho.
Foi uma reação automática. O homem insistiu e ele cortou novamente:
- Tô sem trocado.
Até que o desconhecido se irritou.
- O senhor escutou o que eu falei? Eu disse "bom dia e boa viagem?.
Nem todo mundo faz como uma amiga, que resolveu perguntar a um mendigo qual era o seu sonho.
- Uma porta - ele respondeu.
Parece pouco para quem está sempre com uma maçaneta à mão. Mas não para quem vive nas ruas.
Mas será que lá no fundo ficamos com a consciência em paz ao dizer um não??? Confesso que me incomoda.
Me lembro que Chiara Lubich, fundadora do movimento dos focolares, dizia que se deve amar a todos (está no evangelho) e neste caso significa, pelo menos, ouvir o outro e, se possível, ajudar de alguma maneira. Ela dizia: eu posso amar e dar a minha contribuição... o que o outro vai fazer com o dinheiro depende dele...diante de Deus eu procurei fazer a minha parte...
Mas sabemos que não é simples. Somos abordados diversas vezes num dia; ficamos divididos: o que é melhor? dar logo o dinheiro para me "livrar" do pedinte, dizer não, ou fazer de conta que o outro não existe?
Parar para ouvir: apesar de difícil (estamos sempre com pressa...) mas se eu paro para ouvir, posso ter uma ideia mais clara do que fazer para aquela situação.
Recebi o texto abaixo, é do Jornalista Mauro Ventura, de O Globo e me pareceu interessante,
O homem se aproxima, acompanhado do bafo de bebida.
- Posso falar um instantinho com o senhor? - pergunta.
- Só não me venha pedir dinheiro - respondo.
- Não, é que eu estava precisando completar a passagem.
- Não tenho, não - encerro a conversa, me afastando rapidamente.
Tento justificar para mim mesmo minha rispidez. Ele falou que o assunto não era financeiro, mas tratava-se obviamente de dinheiro. Além disso, cheirava a bebida. Mas nem por isso eu precisava ser tão rude.
É difícil dar alguns passos no Rio sem ser abordado por alguém. Um menino de rua, um mendigo, um entregador de folheto. Quando é dinheiro, damos alguma das seguintes desculpas clássicas, nenhuma delas plenamente justificável.
- Não tenho (em geral temos algum).
- Desculpe, estou sem trocado (ele sabe que pelo menos uma moedinha a gente deve ter).
- Fica para a próxima (como se algum dia fôssemos revê-lo).
- Vou ficar devendo (como se ele fosse cobrar depois).
- Sinto muito (como se realmente sentíssemos tanto assim).
- Tá ruim pra todo mundo (de fato, mas para ele está bem pior).
- Tá feia a coisa (está mesmo, mas não serve de consolo).
No livro "No olho da rua", Marcelo Antonio da Cunha conta que na sua infância, no Recife, a mãe ensinou-lhe a pedir desculpas aos mendigos.
- Me dê uma esmola, pelo amor de Deus.
- Perdoe-me - ele respondia.
- Amém.
Trinta anos depois, ele já tinha substituído o "perdoe-me" pelo "estou sem trocado". Seu filho quis saber por que ele mentia para os pedintes. Marcelo explicou que era para não estimular a permanência deles nas ruas.
Mas ele se tornou diretor da Fazenda Modelo, um abrigo destinado à população de rua. Ali, descobriu o inferno, e sentiu necessidade de pedir novamente perdão, pela forma como são tratados os que estão à margem.
Não chego a tanto, mas confesso que volta e meia bate uma pontinha de culpa quando fecho a cara e digo "não tenho" diante de mais um pedido.
A verdade é que ninguém está muito a fim de ouvir estranhos. Andamos tão sobressaltados que uma aproximação mais brusca já intimida. O rapaz estava no ponto de ônibus quando um mendigo se aproximou e falou algo. Antes mesmo de ouvir o que estava sendo dito, ele respondeu:
- Não tenho.
Foi uma reação automática. O homem insistiu e ele cortou novamente:
- Tô sem trocado.
Até que o desconhecido se irritou.
- O senhor escutou o que eu falei? Eu disse "bom dia e boa viagem?.
Nem todo mundo faz como uma amiga, que resolveu perguntar a um mendigo qual era o seu sonho.
- Uma porta - ele respondeu.
Parece pouco para quem está sempre com uma maçaneta à mão. Mas não para quem vive nas ruas.
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